FloCiBO na estrada – Grécia

M.e lembro que quando cheguei em Bologna, três anos atrás, no final de julho de 2012, me deparei com uma cidade terrivelmente inóspita: um calor infernal (temperaturas beirando os 40 graus, umidade a mais de 80%), ruas vazias, tudo fechado. Que diabos vim fazer aqui? Continuava a me perguntar por mais de um mês.

Só depois entendi: na Europa, agosto é o mês por que todos esperam. As temperaturas atingem o auge; os escritórios, restaurantes, lojas e escolas fecham e, todos os anos, se dá o êxodo em direção ao mar. É como se carnaval, réveillon e aniversário fossem concentrados em um só mês.

Agora, já acostumada com esse fenômeno, tão logo chega a primavera começo a sentir uma espécie de coceira para sair do trabalho mais cedo, unida a uma incontrolável vontade de pular no mar. E passada a metade de julho, ciao. Fujo mesmo.

Partiu Grécia
Partiu Grécia (Foto: Simone Tortini)

Neste ano, não foi diferente. Com um calor recorde, de fritar uma bisteca fiorentina alta assim no chão, não quis saber das previsões catastróficas sobre a situação da Grécia e foi pra lá mesmo que resolvi escapar. Não me arrependo.

Parti para duas das Ilhas Cíclades (um grupo de ilhas no sul do mar Egeu), a selvagem e apaixonante Milos e a linda e agitada Santorini

O concorrido pôr-do-sol de Santorini (Foto: Simone Tortini)
O concorrido pôr-do-sol de Santorini (Foto: Simone Tortini)

Mas, não vim aqui para falar do mar azul, das praias de todos os tipos, formas e fundos (pedrinhas, pedronas, areia preta, areia branca, areia vermelha…)

Degradê - Milos
Degradê – Milos (Foto: Simone Tortini)

tampouco dos cenários cinematográficos com aquelas casinhas brancas e azuis penduradas em cima dos morros.

Santorini (Foto: Simone Tortini)
Santorini (Foto: Simone Tortini)

Como sempre, quero falar é de comida.

E que delícia de cozinha. Simples, com poucos ingredientes (basicamente peixes, cabrito, tomates, azeitonas, pimentões, pepinos, iogurte e alho), é o tipo de cozinha da qual dificilmente se cansa.

Sem mais, deixo vocês com minha lista dos melhores pratos (com nomes de alguns restaurantes aprovadíssimos), para lembrar daqueles dias ensolarados:

Antepastos e entradas

Essa é a escolha mais difícil. É duro deixar passar a sempre certeira salada grega que, em ambas as ilhas era feita invariavelmente com pimentões verdes, tomates, cebola roxa, pepinos, azeitonas, alcaparras, orégano e azeite, com uma fatia grossa de queijo feta apoiada em cima.

Salada Grega Milos
Salada Grega em Milos

Fresca e gostosa sim, mas não caia na armadilha de pensar que é a única coisa do menu (eu, já no terceiro dia, praticamente desisti dela…tinha muita coisa ainda melhor!)

Por exemplo, friturinhas e bolinhos de vários tipos, além das mil pastinhas e patês, feitos quase sempre a partir de uma base de iogurte grego (que, diferente do que a maioria das pessoas pensa, de magro não tem nada e chega a mais de 10% de gordura) e combinadas com berinjelas, tomates secos, pimentões e etc.

Pastinhas e tomates fritos
Pastinhas e tomates fritos

Dá pra escolher um mix, ou ficar com meu preferido, o deliciosamente refrescante e tradicionalíssimo tzatziki (iogurte grego, alho ralado, pepino ralado e azeite).

Tzatziki
Tzatziki

Mas, quem diria, nem só de iogurte se vive por lá. O mais novo xodó do meu namorado é a “salada de ouriço”, servida em quase todos os bons restaurantes de peixe das ilhas e que consiste simplesmente em polpa de ouriço (uni, para os amantes do sushi; riccio para os simpatizantes da Itália), azeite e poucas gotinhas de limão. Juro que cada mordida traz consigo todo o sabor do mar.

Salada de ouriço (Foto: Simone Tortini)
Salada de ouriço (Foto: Simone Tortini)

Pratos principais – Mar ou terra?

A escolha aqui também não é fácil, mas tudo começa com uma decisão crucial: peixes e frutos do mar, ou carne?

Eu, sinceramente, tinha essa imagem de que, na Grécia, seria possível encontrar peixe fresco em qualquer esquina. Infelizmente, não é bem assim.

Frutos do mar em geral e, em particular, polvo, você pode encontrar em qualquer lugar. Aliás, olha só que engraçado o jeito que os gregos preparam o polvo.

Polvo no varal
Polvo no varal

Eles penduram o bicho em uma espécie de varal e o deixam secar por 1 ou 2 dias… aí, é só jogar na brasa e pronto! (Obs: o sabor é ótimo, mas quem espera um polvo molinho, pode esquecer… ali a moda da casa é sempre servir aquela carne meio chiclete)

Mas, voltando aos peixes – que, na Grécia, são feitos quase exclusivamente na brasa. Por questões burocráticas (i.e. necessidade de licença para a venda de peixes que ultrapassem limites de peso pré-estabelecidos), ou logísticas (em poucas palavras, o peixe que chega no porto, é vendido para os restaurantes do porto), encontrar bons restaurantes de peixe não é tarefa assim tão fácil.

Não é fácil, mas conseguimos! Em Milos, nos apaixonamos por um restaurante no porto de Pollonia (disparado, o melhor lugar para comer peixes em Milos), o Gialos. Tanto que voltamos lá quatro vezes…!

Eu com meu prato de trilhas na brasa (AMO) no Gialos
Eu com meu prato de trilhas na brasa (AMO!) no Gialos

Por outro lado, se a escolha for carne, eu tomo a liberdade de dar 2 sugestões certeiras.

Moussaka

Moussaka - Lasanha grega
Moussaka – Lasanha grega

Presente em praticamente todos os restaurantes, essa quase lasanha é feita com uma base de batatas, carne moída, molho de tomates, molho bechamel e especiarias variadas (dependendo da receita de família, vai canela, cominho, etc.). Minha única recomendação: espere um bom bocado antes de entrar no mar depois de comê-la… é pesada que só.

Comida vulcânica!

A atividade vulcânica na Grécia é contínua e praticamente todas as ilhas foram formadas ou transformadas depois de grandes explosões. Santorini, por exemplo, foi construída na beira da cratera de um vulcão – que, séculos atrás, destruiu quase toda a ilha, soterrando cidades que hoje podem ser visitadas, como a Antiga Thira e a incrível Akrotiri (a Pompéia grega, datada da Era do Bronze).

Em Milos, por outro lado, tem uma praia, Paleochiori, que parece saída de um filme de ficção científica. Com snorkel, dá para ver milhares de bolhinhas subirem continuamente do fundo do mar; nadando um pouco a largo, existem mini praias amarelas e vermelhas, com um cheiro de enxofre insuportável; e em alguns pontos da praia, é possível se deliciar com “piscinas” de água quente. Ainda ali, a areia parece pegar fogo (é impossível caminhar descalço) e os sábios locais aproveitam justamente esse calor interno para cozinhar.

Cardápio do Sirocco, um excelente restaurante de comida vulcânica em Paleochiori (Milos)
Cardápio do Sirocco, um excelente restaurante de comida vulcânica em Paleochiori (Milos)

Os ingredientes são cozidos por toda a noite embaixo da areia e o resultado, claro, são carnes saborosíssimas, que desmancham na boca. Recomendo vivamente o cabrito.

Kimolos - ilha em frente a Milos
Kimolos – ilha em frente a Milos

Enfim, agosto está no final. Semana que vem todos voltam ao batente e eu, já saudosa do mar, enchi minha geladeira de feta e pepinos para reiniciar minha contagem regressiva até o próximo verão.

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