Osteria, trattoria, bar… o que é o quê?

Indo direto ao ponto, é difícil comer mal na Itália. Por isso mesmo, quando bate a fome, são tantas as opções que não é tarefa fácil escolher onde ir. Hoje, porém, quero complicar ainda mais, adicionando outra variável à equação: a tipologia do lugar.

Me explico: você já parou para pensar que existem diferenças entre um restaurante (em italiano, ristorante), uma trattoria e uma osteria? Pois é.

Para entender melhor, é preciso voltar um pouco no tempo. Em meados do século XV, surgem na região da Emilia Romagna (primeiro em Ferrara e depois em Bologna) as primeiras osterie, que nada mais eram que estabelecimentos onde as pessoas se encontravam para beber vinho.

Por serem “pontos de encontro”, normalmente ficavam em lugares de passagem ou zonas comerciais – perto de cruzamentos, praças e mercados. A segunda osteria mais antiga da Itália é a Osteria del Sole, em Bologna, situada desde 1465 na zona do antigo mercado, o Quadrilatero, bem pertinho da Piazza Maggiore, o coração da cidade.

Divulgação Osteria del Sole Bologna
(Divulgação Osteria del Sole)

É interessante usá-la como exemplo para entender melhor o conceito original desse tipo de lugar: até hoje, na Osteria del Sole, a oferta é exclusivamente de vinhos (e algumas opções de cerveja). Isso mesmo, não existe cozinha. Aí você me diz: “Peralá, vou até Bologna, decido ir a esse lugar que é sempre apinhado e bebo de estômago vazio?”

Não necessariamente: é permitido levar para dentro do estabelecimento o que você quiser comer. Por isso, graças à sua localização – em meio à maior concentração de lojas de frios, queijos e outros produtos locais de Bologna – a melhor pedida é comprar pão e mortadela ali do lado antes de entrar e, uma vez dentro, sentar e pedir uma boa garrafa de vinho. Mais bolonhês impossível.

Mas voltando ao ponto: em poucas palavras, osteria nasce como um lugar para beber e comer, nessa ordem.

E se, por outro lado, o objetivo principal for comer? Aí as coisas se complicam um pouco. Vamos por partes: para uma refeição completa, existem basicamente duas opções: a trattoria e o ristorante. Se você quiser uma comida caseira, típica da região, em um ambiente mais simples, vá a uma trattoria.

Trattoria
Prato típico de uma trattoria da região de Bologna: tagliatelle com linguiça e ervilhas

Se, por outro lado, a intenção for ir a um lugar mais refinado, onde o cardápio seja menos tradicional e mais inventivo, a escolha certa é um ristorante.

Osteria Magenes
Sobremesa chique de um restaurante em Milão

Mas não se engane: na prática, com o passar do tempo, as distinções entre esses termos – e tantos outros, como veremos a seguir – ficaram bem mais fluidas. Trattoria e osteria, hoje, são quase sinônimos, e o nome remete mais às origens do lugar que ao “estado atual”. Indo além, até um ristorante com três estrelas Michelin pode ter sido uma osteria no passado: o atual restaurante numero um do mundo, por exemplo, é a Osteria Francescana, do Massimo Bottura.

Para um almoço rápido existem basicamente três opções: a tavola fredda, a tavola calda e o bar. Ainda que uma não exclua a outra (você pode encontrar um bar com tavola fredda e tavola calda…), os conceitos são: na tavola fredda, você encontra opções que não necessitam preparo prévio ou cozimento – no máximo aquela esquentada no micro-ondas. Saladas e sanduíches são as opções principais.

Na tavola calda, por outro lado, você também encontra comidas muito pouco elaboradas, mas que normalmente requerem fogão ou forno para sua preparação (exemplo clássico: arancino, friturinhas em geral).

brioches1Já o conceito de “bar italiano” é mais peculiar – e contra-intuitivo para estrangeiros. Já falei com mais detalhes dele aqui, mas basicamente é o lugar onde as pessoas vão para tomar café da manhã, tomar um cappuccino no meio do dia, ou fazer um aperitivo no final da tarde (os bares, no geral, não ficam abertos até a madrugada; para um drinque à meia-noite normalmente você deve ir a um pub).

Por último: digamos que você queira comer e dormir. Vai para onde? A uma locanda. Essa figura é mais rara, mas ainda existe, principalmente fora das grandes cidades. Um exemplo, de que já falei pouco tempo atrás, é o Amerigo, em Savigno.

Infográfico - Onde comer na Itália
Recapitulando…

Espero não ter confundido demais as bolas… e tenha certeza que não falei de muitas outras figuras, como a buca (um lugar abaixo do nível da rua – como o Buca Lapi, em Firenze, do qual já falei por aqui), o agriturismo, a taverna… mas por ora paro por aqui.

E termino o post retomando a frase com que comecei: a despeito da tipologia do lugar, fique tranquilo: é realmente difícil comer mal na Itália, seja onde for.

Especial Trufas #4 – Restaurantes em BO

No quarto e último post da série especial sobre trufas, o FloCiBO esclarece que não existe “a melhor trufa da Itália” e que é possível degustar ótimos exemplares em quase todo território, inclusive nos arredores de Bologna.

Na Itália, existe uma coisa chamada “campanilismo”, uma expressão que deriva da palavra “campanile” (“sino”, normalmente de uma igreja), que antigamente era o símbolo da demarcação de uma cidade – cada vilarejo, ainda que mínimo, tinha o seu. Tal expressão denota o apego, às vezes exagerado, ao próprio território. bell

O lado bom é que, assim, costumes, tradições e, por que não, receitas e ingredientes são preservados com unhas e dentes. Por outro lado, não é raro se deparar com rivalidades entre vizinhos de território que fariam palmeirenses e corinthianos enrubescerem…

Na verdade, o país inteiro é multifacetado e cada uma das 20 regiões tem peculiaridades e tradições muito marcadas. Não é de se estranhar: a unificação da Itália ocorreu só em 17 de março de 1861; até então, cada região tinha sua herança histórica particular, tendo pertencido a reinos e impérios distintos, e sofrido a influência de povos bem diferentes ao longo da história.

Mas por que raios estou falando disso quando o assunto desse post é trufa? Pois bem, esse preâmbulo serve para alertar que, em se tratando de um ingrediente tão precioso, constatações sobre qual é a melhor trufa da Itália são praticamente inúteis. Cada região tem certeza que a sua é melhor.City

Como já falei nos post anteriores, as trufas brancas mais famosas são as de Alba, no Piemonte. Mas, na verdade, o que se diz em todas as outras regiões “produtoras” de trufas é que a qualidade não depende tanto da localidade, mas do tempo que ela demora para completar seu inteiro ciclo reprodutivo; da profundidade onde se encontra o corpo frutífero do fungo (i.e. a trufa) e ainda das características do solo – se mais ou menos permeáveis à agua e aos raios de sol.

As trufas piemontesas podem até ser maiores, mais bonitas, e revestidas de uma certa aura de glamour, mas não há qualquer unanimidade no dizer que são, a priori, as melhores.

A coisa mais próxima do consenso que Alba conseguiu foi a criação de uma associação nacional, a Associazione Nazionale Città del Tartufo, que nasceu ali, mas que hoje conta com a participação de aproximadamente 50 cidades italianas que se uniram para também promover seus territórios como localidades abençoadas por esse fungo.

Benvenuti a SavignoA mais perto de Bologna é Savigno, que apesar do tamanho diminuto – uma praça com uma igreja (e seu respectivo sino, claro) e umas cinco ruas – se tornou uma referência do comer bem. Um dos protagonistas de tal conquista é o restaurante com uma estrela Michelin, Trattoria da Amerigo.

Como já falei dele aqui, não vou me repetir (dá uma espiada no post que fiz algum tempo atrás), mas quero acrescentar duas informações essenciais: primeiro, principalmente na época das trufas, reserve com MUITA antecedência (pelo menos umas duas semanas antes). Segundo, se você tiver a sorte de ir, não perca em hipótese alguma o carro-chefe da casa: “Uova Amerigo ai due tartufi” (“Ovos Amerigo com duas trufas”).

Uova Amerigo - Foto Simone Tortini
Uova Amerigo 2016 (Foto Simone Tortini)

Já falei por aqui que ovos e tartufos são melhores amigos. Mas e se, ao invés do bom e velho ovo frito, você se deparasse com dois ovos: um pochê, que depois é empanado “à milanesa” e recoberto de lascas de trufas negras e, do lado, uma espécie de ovos nevados com a gema líquida dentro, servido com um creme de Parmigiano Reggiano e tartufo branco polvilhado por cima…? Dá tão certo que esse prato entrou no menu em 2003 e, mesmo com variações sazonais, nunca mais saiu.

Uova Amerigo 2015

Neste ano, tive a sorte de conhecer outro restaurante excelente daquela região. Foi por acaso: meu pai estava vindo me visitar e eu queria muito levá-lo ao Amerigo. Mas comi bola, tentei reservar com uma semana de antecedência e não tinha mais lugar. Desesperada, pedi ajuda de uma amiga bolonhesa, que trabalha em um restaurante em Paris, e ela – santa! – me sugeriu a Trattoria Lina.

Trattoria LinaEsse restaurante, muito mais rústico (e menos caro) que o Amerigo, nasceu em 1956, inicialmente como uma mercearia de produtos típicos. Mais tarde, nos anos 70, se transformou em um restaurante cuja missão é respeitar rigorosamente a tradição culinária local e os ingredientes da época.

Gostei tanto que fui dois finais de semana seguidos. As massas frescas – que variam – com trufas brancas são imbatíveis. Tudo muito simples: passadas na manteiga, com uma gotinha de creme de leite – que eu normalmente repudio, mas desse jeito funciona – e muitas lascas de trufas perfumadíssimas por cima. Aliás, entrar no restaurante é uma experiência quase surreal: primeiro, você toma um tapa de tartufo na cara – o aroma é realmente fortíssimo lá dentro. Depois, meio zonzo, vê a quantidade de camisas do Bologna F.C. (time de futebol da cidade) penduradas pelas paredes e, com o calor da lareira que fica logo do lado da porta fica ainda mais atordoado. Só depois que uma das garçonetes – com o avental sujo de ovo e farinha de quem acabou de sair da cozinha – te leva à mesa é que você relaxa.

Maccheroncini alle ortiche con tartufo bianco
Maccheroncini alle ortiche con tartufo bianco – parecem amêndoas, mas são trufas…

Falando nisso, se você for nessa época, quando a casa está sempre lotada, é bom estar bem relaxado mesmo, porque o serviço, apesar de muito gentil, é bem confuso. Mas a espera vale a pena. E quero voltar logo – quem sabe neste fim de semana…

No entanto, e se você vier pra Bologna, quiser comer trufas mas não tiver um carro para ir a Savigno? Te dou duas opções. A primeira, um restaurante especializado nesse ingrediente, a Trattoria Il Tartufo. Em um ambiente que parece um chalé de montanha, meu conselho é pedir ou uma massa fresca ou um risoto finalizados (“mantecato”) na fôrma de queijo Parmigiano Reggiano, com trufas frescas raladas por cima. Funciona assim: a dona do restaurante vem em direção à mesa, empurrando um carrinho com uma fôrma gigante de queijo em cima, pega a massa ou o risoto recém saídos da cozinha, coloca dentro da fôrma e gira tudo por alguns minutos, para absorver o gostinho do Parmigiano. Por fim, transfere o resultado para um prato e rala trufas frescas por cima. Nada mal, não?

A segunda opção é xeretar se no dia da sua visita à cidade algum restaurante tradicional está servindo excepcionalmente pratos com trufas. Sei que o Da Cesare faz isso, e às vezes o Diana também (o último não figura na lista dos meus restaurantes favoritos da cidade, ainda que seja um restaurante histórico e muito famoso, mas pelas trufas pode valer a pena).

Tartufo - Trattoria Lina
Tartufo – Trattoria Lina

E, assim, eis que chega ao fim o Especial Trufas do FloCiBO. Espero que tenha gostado.

Um beijo e até a próxima!

Restaurantes indicados:
Trattoria da Amerigo (Via Guglielmo Marconi, 14-16, Savigno)
Trattoria Lina (Via Samoggia, 2109/A, Savigno)
Trattoria Il Tartufo (Via del Porto, 34, Bologna)
Ristorante Da Cesare (Via de’ Carbonesi, 8, Bologna)
Ristorante Diana (Via Indipendenza 24, Bologna)

Especial trufas #3 – Curiosidades

No terceiro post da série especial sobre trufas, o FloCiBO traz algumas curiosidades, dicas e informações não triviais sobre esse ingrediente, além dos mitos que pairam a seu redor.

historyComo a maior parte dos alimentos, é difícil saber ao certo quando as trufas entraram no cardápio dos homens. Há quem defenda que existam registros de um fungo muito semelhante na dieta dos Sumérios e Hebreus nos anos 1.700 e 1.600 a.C. Mas a primeira menção oficial ocorreu mesmo em 79 d.C, na Naturalis Historia, do latino Plinio “il Vecchio”.

Mais tarde, registros históricos mostram que as trufas foram introduzidas à mesa dos romanos pelos Etruscos e tamanha a comoção diante desse ingrediente, criaram-se lendas acerca de sua origem: por muito tempo, não se sabe se por crença ou poesia, dizia-se que as trufas nasciam a partir da reação entre a água e o calor dos relâmpagos que caíam nas proximidades de carvalhos (!).storm-2

Mais, esses raios seriam uma manifestação da potência sexual do deus Júpiter e daí o poder afrodisíaco do fungo – algo que se acredita até os dias de hoje.

Do ponto de vista científico, debateu-se por muito tempo sobre a taxonomia das trufas: uma planta? Uma excrecência do terreno? Ou um animal? E a polêmica foi tanta que mais tarde se criou um campo específico para estudo das trufas: a idnologia.

Água cara

waterMais de 80% da composição total das trufas é água. Se considerarmos que o preço do quilo de trufas brancas pode chegar a € 5.000, é provável que se trate da água mais cara de que se tem notícia.

Aliás, na hora de escolher uma trufa, preste menos atenção em eventuais buraquinhos (se bichinhos provaram, quer dizer que é boa) e mais no peso; na dúvida entre duas trufas do mesmo tamanho, dê preferência à mais firme e pesada, que contém mais água e provavelmente é mais fresca. Só fique atento com a terra: se tem muita terra em volta dela, o peso total obviamente vai aumentar.

Mas, antes de tudo isso, a regra de ouro para escolher é deixar que seu nariz te leve: quanto mais aromática melhor.

Calorias e toneladas

Está querendo emagrecer? As trufas vão bem em qualquer dieta: 100g contêm, aproximadamente, 31 calorias (além de 4,5g de proteínas, 2g de gorduras, 0,3g de carboidratos e 8g de fibras).

Não penso que seja esse o motivo, mas o fato é que 10 milhões de toneladas de fungos em geral, inclusive trufas, são consumidas no mundo. Só na China o consumo chega a 7 toneladas, seguida da Itália (quase um milhão) e os EUA (meio milhão).

A Itália

Antes de mais nada, é bom esclarecer que “truffa” em italiano não é um fungo, mas crime de fraude. O nome certo é “tartufo”, que pode ser nero (negro) ou bianco (branco).

Mercato Tartufo
Mercato tartufo bianco

Todos os anos, partem da Itália para o resto do mundo 60 toneladas de trufas brancas. É, de longe, o maior exportador desse ingrediente, além de ser a casa do maior produtor de trufas brancas do planeta, responsável por aproximadamente 70% do mercado mundial. Chama-se Urbani Tartufi, uma empresa familiar com sede em Perugia.

Mas não se engane: ainda que se trate de uma empresa tradicional, a Urbani tenta inovar constantemente – para o bem e para o mal… para o arrepio de puristas, em seu catálogo estão presentes não apenas os fungos in natura, óleos e conservas, mas também trufas de chocolate feitas com trufas de verdade (?!) e uma linha especial para sushi (??!!).

VIP

Ainda falando de tal empresa, a cada ano seus proprietários escolhem uma personalidade a ser presenteada com um dos maiores exemplares da “colheita”. Já receberam essa honraria: a Rainha da Inglaterra, seu marido Phillip e a princesa Diana; Sophia Loren e Marcello Mastroianni; e, quem diria, Donald Trump e Barack Obama – que em 2012 ganhou um exemplar de 1,012 kg.

Mesmo sem ganhar de presente, outros VIPs não fazem por menos: também em 2012, Jay-Z desembolsou 20.000 dólares em sua visita a Alba.

Ano que vem, quem sabe?

Por fim, agora que você deve estar morrendo de vontade de abocanhar uma trufa inteira, fica a dica da melhor época do ano para vir pra cá e curtir tudo isso: o outono. Melhor ainda se conseguir dar uma passada no Piemonte quando estiver rolando uma das maiores feiras gastronômicas da Itália, que em 2016 chegou à 86a edição: a Fiera Internazionale del Tartufo Bianco D’Alba.

Na cidade de Alba, por quase um mês nos meados de outubro e novembro, além da possibilidade de comprar trufas, o visitante pode conhecer outros produtos típicos (como a deliciosa avelã do Piemonte IGP, que deu origem a um dos produtos mais famosos da região, a Nutella) e participar de inúmeros eventos paralelos, que vão de exposições, aulas práticas e teóricas de culinária e gastronomia, até manifestações culturais tradicionais como corrida de burros e concurso de beleza…

E se você já marcou sua viagem para o ano que vem, mas pretende ficar só nos arredores de Bologna, não perca o próximo post, com dicas de restaurantes imperdíveis especializados em trufas.

Ciao!

Para saber mais:
http://www.tuber.it/it/storia-mito.php
http://www.finedininglovers.it/blog/food-drinks/tartufo-dati-curiosita/
http://urbanitartufi.it/curiosita/
http://urbanitartufi.it/blog/2016/05/18/il-tartufo-che-ha-scritto-la-storia/
http://shop.urbanitartufi.it/en/26-truffle-sushi
http://www.fieradeltartufo.org
Infográfico Tartufo FloCiBO

Especial trufas #2 – Infográfico

Como você já conferiu no post de ontem, o FloCiBO está trazendo uma série de textos sobre um dos ingredientes mais nobres da cozinha, a trufa (em italiano, tartufo). O primeiro foi uma introdução com informações básicas sobre o que de fato é e por que é tão rara – e cara – e hoje, uma surpresinha colorida. Em breve, algumas curiosidades e dicas e, por fim, um depoimento contando minhas experiências em restaurantes especializados nesses ingredientes.

Lo conosci ma non sai definirlo, lo percepisci ma non riesci ad assaporarlo, lo avvicini ma non ne cogli l’anima. Araba fenice della gastronomia internazionale, utopia dei sensi, il tartufo bianco è essenzialmente profumo, e solo dopo anche gusto.”

(“Você a conhece, mas não sabe definir, percebe, mas não consegue saboreá-la, chega perto, mas não alcança sua alma. Fênix da gastronomia internacional, utopia dos sentidos, a trufa branca é essencialmente perfume, e só então também sabor.”)

Trecho de L’utopia del tartufo bianco, de Carlo Cracco (Ed. Fernando Folini Productions, p. 74), chef-celebridade italiano com duas estrelas Michelin (restaurante Cracco, em Milão) e protagonista de programas televisivos como Master Chef Italia e Hell’s Kitchen Italia.

Você, que aguentou uma verdadeira aula no último post, e aprendeu tudo sobre as trufas, merece um pouco de alegria e, de lambuja, relembrar os aspectos mais importantes desse ingrediente – para poder fazer bonito da próxima vez que topar com ele, ou cara feia e “com conteúdo” quando se deparar com óleos trufados.

Por isso, enquanto um novo texto com dicas e curiosidades engraçadas sobre esse fungo chique não é publicado (só para dar um gostinho, você sabia que por muito tempo se acreditou que as trufas eram formadas a partir de relâmpagos? E que 100g contém míseras 31 calorias?), que tal se divertir e compartilhar esse infográfico feito com carinho, especialmente pra você? (pode clicar para ver todos os detalhes!)

Infográfico Tartufo FloCiBO
Infográfico Trufas – by FloCiBO
A inspiração para esse infográfico foi tirada do site Susan Alexander Truffles.

Gostou? Não perca o próximo post!

Ciao!

Os 7 ditados do “pão”

Desde 2001, anualmente, durante a terceira semana de outubro acontece a Settimana della Lingua Italiana nel Mondo (Semana da Língua Italiana no Mundo), que é um evento de celebração da língua italiana como elemento importante da cultura clássica e contemporânea organizado por órgãos diplomáticos e culturais ligados ao Governo da Itália.

A cada ano, um tema é escolhido como fio condutor de várias manifestações culturais como palestras, exposições artísticas e shows. Em 2016, escolheu-se “O italiano e a criatividade: marcas e costumes, moda e design”.

E falando mais genericamente da criatividade da língua italiana, um dos aspectos que mais me diverte são expressões e ditos populares que vira e mexe escuto por aí. Tem para todos os gostos.

Em se tratando de comida, porém, poucas rendem expressões tão engraçadas e significativas quanto o pão.

Agora que você já está craque na teoria do fazer pão, que tal usá-lo também para engordar o vernáculo (italiano)?

Pão

Italiano
Português
Significado
Buono come il pane”  “Bom como o pão” Uma pessoa muito boazinha
Non è pane per i tuoi denti”  “Não é pão para seus dentes” Não é algo para você; algo como “não é para o seu bico”
Per un pezzo di pane  “Por um pedaço de pão” Por um preço baratíssimo
A pane e acqua  “A pão e água” No limite da sobrevivência; expressão normalmente utilizada quando se quer falar de uma punição duríssima, ou de condições econômicas precárias
Essere pane e cacio “Ser pão e queijo” “Ser unha e carne”, duas pessoas que se dão muito bem e não se desgrudam. A expressão em italiano deriva da cultura pastoril, cuja alimentação era baseada em pão e queijo
Dire pane al pane e vino al vino”  “Dizer pão ao pão e vinho ao vinho” Ser muito claro, “colocar os pingos nos i’s” sem deixar margem para dúvidas e, às vezes, sendo meio grosso
Mangiare il pane a tradimento”  “Comer o pão traiçoeiramente” Viver às custas de alguém e não ser agradecido; ganhar sem fazer por merecer

Deu fome. Ciao!

Festas sagradas

Uma das coisas mais gostosas de morar fora é receber minha família e meus amigos vindos do Brasil e poder mostrar a eles um pouquinho da vida italiana de verdade – esse foi inclusive um dos propósitos originais do FloCiBO.

Nestes últimos dias, tive o prazer de ter meu pai aqui comigo, que veio na melhor época do ano para curtir as maravilhas gastronômicas do Bel Paese.

Isso porque o outono, além de ser a estação com ingredientes únicos e deliciosos como cogumelos (principalmente o porcino), castanhas e as preciosas trufas brancas – vou falar delas muito em breve – é também o período das sagre.

Sagra (sagração, em português) = festa popular de caráter local e periodicidade anual. As sagre têm origem católica e nascem como períodos de celebração de um santo (normalmente o santo padroeiro da cidade). Com o tempo, transformaram-se em ocasiões para comemorar a colheita de um ingrediente local, ou em oportunidades para promover produtos enogastronômicos da região.

Tem para todos os gostos: frutas, legumes, massas, carnes, queijos, embutidos… cada qual em uma cidadezinha diferente espalhada pelo território. Dentre as minhas preferidas, bato ponto todo ano na Sagra dell’Anguilla, a festa da enguia, em Comacchio.

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Comacchio

Comacchio é uma cidade linda (ouso dizer que é uma micro Veneza) na província de Ferrara que fica pertinho da linha que divide as regiões da Emilia Romagna e o Vêneto.

Pontes e Canais
Pontes e canais (Foto: Simone Tortini)

Dada sua posição particular, entre o Mare Adriatico e a foz de um dos maiores rios da Itália, o Po, é rodeada de canais de água salobra e, além de dar lugar à reserva natural com uma das maiores concentrações de espécies de aves da Itália (o Parco del Delta del Po, que tem até flamingo!), é também o habitat ideal para esses peixes esquisitos e deliciosos.

Por conta da sagra, durante quase um mês a cidade recebe milhares de visitantes que percorrem seus monumentos históricos, como as famosas três pontes e saboreiam essa iguaria (que as pessoas ou amam, ou odeiam, não tem meio termo) no stand oficial da festa, ou nos inúmeros restaurantes que preparam menus típicos especiais para tal ocasião.

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Enguias prontas pra brasa

A festa em si, como a maioria das sagras, parece uma quermesse: em um barracão, os comensais (velhos, crianças; moradores locais e turistas) se sentam e preenchem uma comanda com suas escolhas do menu especial.

Os pratos e o esquema todo são muito simples, como o misto de antepastos típicos, a enguia com molho agridoce e a massa com ragu de enguia.

Meu preferido, o filé de enguia na brasa com polenta jamais decepciona.

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Anguilla grigliata con polenta

Ao longo das ruazinhas da cidade, por sua vez, espalham-se barraquinhas com artesanato local e produtos da região.

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Adoro essa embalagem de enguia marinada, de uma empresa local

Dá até pra conhecer uma peixaria estupenda que nessa época abre as portas inclusive nos domingos para mostrar a todos a riqueza e a variedade dos produtos locais

É, enfim, uma daquelas experiências que eu gostaria de dividir com todos (tanto que carreguei meu pai pra lá). Daquelas que enchem a barriga, aquecem o coração e mostram por que a Itália é um dos países mais fascinantes do mundo.

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Pescheria Trepponti

Massas estranhas com nomes esquisitos

La vita è una combinazione di pasta e magia” (“A vida é uma combinação de pasta e magia”)

– Federico Fellini

Um bom prato de macarrão, na Itália, é quase uma poesia. O equilíbrio perfeito entre a forma da massa e o molho (tenho um velho post sobre isso), a simplicidade e rapidez com que as melhores receitas são preparadas e, claro, o prazer de comer tudo, até o último fio – ou bocado… a verdade é que aqui poucas coisas são tão sagradas como um bom prato de pasta.

Tutto quello che vedete lo devo agli spaghetti” (“Tudo isso aqui que vocês estão vendo eu devo ao espaguete”)

– Sophia Loren

E, em se tratando de macarrão, duas coisas são virtualmente infinitas: as receitas e curiosidades sobre o tema.

Hoje, quero falar sobre um dos seus aspectos mais engraçadinhos: os nomes das massas e seu significado em italiano – que provavelmente as pessoas fora da Itália jamais imaginaram!

[Ah, um pequeno lembrete: como falei na apresentação deste blog, os nomes “oficiais” das massas aqui são sempre no plural.]

pasta

Fica aqui minha lista com os 10 significados de nomes de pasta mais divertidos, na minha opinião:

PLURAL SINGULAR TRADUÇÃO
Farfalle Farfalla Borboleta
Spaghetti Spaghetto Linha fina
Penne Penna Pena
Orecchiette Orecchietta Orelhinha
Lumache Lumaca Caramujo
Conchiglioni Conchigliona Conchona
Capellini Capellino Cabelinho
Gramigna Gramigna Grama
Mezze maniche Mezza manica Manga de camisa
Strozzapreti Strozzaprete Estrangula-padre (!)

Milão verde e amarela

Neste final de semana, Milão esteve mais brasuca que nunca: show aclamadíssimo de Caetano e Gil (que o jornal o Corriere della Sera classificou como “um milagre da perfeição”), visita da presidente Dilma à EXPO 2015 (que balançou, mas não caiu na rede do pavilhão brasileiro) e, ainda ali na exposição universal, uma participação especialíssima de um dos nossos chefs mais talentosos da atualidade, Rodrigo Oliveira, do Mocotó, que por um final de semana apresentou seus pratos em um restaurante dedicado aos melhores chefs do mundo.

Com o coração esmigalhado, não consegui ir ao show; com um certo alívio, não topei com a Dilma; mas, graças a uma boa pitada de sorte, e sem saber, acabei me deparando com o esplêndido menu do Rodrigo enquanto passeava pela EXPO.

As supresas que essa tal de Expo 2015 pode trazer...
As supresas que essa tal de Expo 2015 pode trazer…

Era hora do almoço, eu e meu noivo Simone estávamos tentando decidir onde comer – bar de tapas espanholas? Food truck holandês? Buffet do Catar? Restaurante do Cazaquistão? – e, por acaso, passamos na frente do Identità Expo, um espaço do projeto Identità Golose, onde a cada semana um chef estrelado diferente apresenta um menu degustação de quatro pratos, cada qual acompanhado por um vinho especial (preço: 75 euros por pessoa). Não acreditei nos meus olhos quanto vi isso aqui:

Menu do Rodrigo Oliveira no Identità Expo
Menu do Rodrigo Oliveira no Identità Expo

Carreguei o Simone, meio ressabiado, pra dentro e a festa começou. Continue reading “Milão verde e amarela”

Diretamente do mar

Peixe fresco no coração de Bologna
Peixe fresco no coração de Bologna

Talvez porque tenha sangue japonês correndo nas veias, ou simplesmente porque é bom e ponto, o fato é que sempre gostei muito de comer peixe.

Quando morava em São Paulo, porém, confesso que à exceção de lugares conhecidos e confiáveis, sempre ficava com um certo pé atrás de pedir peixe (frutos do mar nem se fala!) por receio de não ser fresco.

Até cheguei a pensar que fosse frescura minha (desculpe o trocadilho), mas eis que, quando já estava morando aqui na Itália, meu talentosíssimo amigo José Orenstein fez uma matéria que na minha opinião é histórica, sobre por que efetivamente o peixe que chega à maior parte dos restaurantes em São Paulo não é fresco. (Vale a pena ler, clique aqui.)

Uma edição histórica do Caderno Paladar
Uma edição histórica do Caderno Paladar

Mas o que isso tem a ver com Bologna? Pois bem, qual não foi minha surpresa ao chegar em Bologna – que, atenção, não é uma cidade litorânea – e ver que bem no miolo do centro da cidade, ou seja, praticamente a dois passos da praça principal (a Piazza Maggiore) e da igreja mais importante (de San Petronio), em um raio de menos de 10 metros, existem três peixarias que vendem produtos fresquíssimos (muitos ainda vivos).

Peixes na rua
Peixes na rua

Continue reading “Diretamente do mar”

Algumas regrinhas italianas – ilustradas

Falei há pouco dessa enorme manifestação que será a EXPO 2015 em Milão e, sem querer fazer suspense, mas já fazendo, garanto que ainda falarei muito dela por aqui.

Pois bem, no último post sobre o assunto, mostrei algumas imagens muito bacanas, compartilhadas na página facebook do projeto Short Food Movie – Feed your Mind, Film your Planet, e hoje quero ir além.

Nessa mesma página, foi publicada uma série de “panfletos” que ilustram algumas expressões absolutamente fundamentais em todas as mesas italianas. Vamos a elas:

"Butta la pasta"! Ou seja, "Joga o macarrão!"
“Butta la pasta”! Ou seja, “Joga o macarrão!”

Continue reading “Algumas regrinhas italianas – ilustradas”