Devagar e sempre

slow food

(Artigo originalmente publicado no What the Food!, em 27/05/2013. Clique aqui para ir ao site)

Entender a real importância da comida para um italiano pode não ser das tarefas mais triviais. Aqui na Itália, comer bem não é um capricho, mas um dos pressupostos para uma vida digna.

Caminhar nas ruas, a qualquer hora do dia, e ouvir pessoas (de todas as idades, seja nas conversas entre as senhoras, ou entre jovens em mesas de bar) trocarem dicas, receitas, e contarem em detalhes o que comeram no jantar do dia anterior é das coisas mais lindas deste lugar.

Não causa grande surpresa, portanto, saber que aqui nasceu aquele que pode ser considerado o “movimento gastronômico” mais interessante dos últimos tempos: o slow food.

Incomodado com a tendência à padronização dos sabores e da cultura alimentar pelo mundo, o italiano Carlo Petrini criou, em 1986, um movimento (transformado em associação internacional, em 1989) em prol do resgate das dimensões mais profundas da relação entre homem, natureza e comida.

Mais especificamente, baseia-se no princípio de que o alimento que consumimos deve ser “bom, limpo e justo”; ou seja, deve proporcionar prazer – não apenas sensorial, mas também afetivo (trazendo boas lembranças, sentimentos) – e deve ser produzido e comercializado de maneira respeitosa ao meio ambiente e aos conceitos de justiça social.

Hoje, a associação slow food conta com mais de 100.000 membros em mais de 150 países, reverberando seus valores por meio de eventos e publicações que fomentem a educação gastronômica.

Aqui, em seu país de origem, além de se verem adesivos com o símbolo do movimento (um desapressado caracol) em inúmeros restaurantes que simpatizam com a causa, existem também, espalhados por cidades como Bolonha, Milão e Turim, os “Mercados da Terra”, onde produtores locais selecionados se revezam periodicamente e oferecem legumes, frutas, queijos, carnes, pães, bebidas e etc., produzidos ou cultivados de acordo com os princípios do slow food.

Em Bolonha, por exemplo, o mercado abre aos sábados pela manhã – ou segunda de noitinha, no verão – e, uma vez que, além das barraquinhas, ali não faltam bancos e mesas, o que se compra pode ser consumido lá mesmo, e o local se transforma em um animado e colorido ponto de encontro.

Vê-se, portanto, que muito além de um slogan, slow food é, em última análise, um apelo global para que mais e mais pessoas apreciem a comida em todas suas dimensões, com prazer, respeito e admiração – em outras palavras, a la italiana.

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